Este é um espaço interativo, construído pelos alunos da discplina Literatura Brasileira II, ministrada na Universidade Federal do Ceará - turmas 2007.1 & 2007.2. Temos como meta discutir,divulgar e produzir conhecimentos acerca do panorama literário brasileiro compreendido no último quartel do século XIX.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ensaio acerca de Memórias Póstumas de Brás Cubas




O AMOR EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS



Brás Cubas nos revela, em suas memórias póstumas, que boa parte de sua vida foi dedicada a seus amores.Ele não narra a seus leitores sobre seu trabalho, sobre suas aventuras, viagens, ou mesmo apenas sobre sua família.Seu maior feito foi entregar-se às delícias do amor, ao qual dedica várias páginas de sua biografia.

A temática amorosa que Machado de Assis inseriu em sua obra através do defunto autor é bastante peculiar.Em muito se difere do amor romântico, muitas vezes opondo-se a ele.Nesta obra machadiana o amor manifesta-se plural.Plural e intenso, pois o protagonista ama várias mulheres e a todas dedica um sentimento fervoroso.Além de relatar as próprias experiências amorosas, Brás Cubas pincela o tema em algumas situações vividas por outros personagens, que chegam a ser cômicas.

Nos remetendo à era romântica, em que o amor seria uma força que movia o mundo e havia um sentimentalismo exagerado, com personagens capazes de tudo para alcançar o objetivo supremo de amar, chegando a cometer atos extremos para a concretização do amor, percebemos quão diferente é a abordagem deste tema.

Embora inicialmente o protagonista da obra machadiana pareça ser um tanto quanto aventureiro, inconseqüente, apaixonado e às vezes até infantil, não é capaz de grandes torturas para atingir seu ideal amoroso, ao contrário, no momento em que seu pai o afasta de Marcela, ele conforma-se numa rapidez surpreendente.E mais rápido ainda a esquece.Não sendo isto o bastante, anos mais tarde, ao vê-la velha, feia e doente, sente nojo dela.

Neste romance, o amor amadureceu, é um adulto. É um amor consciente de seus atos, que sabe de seus perigos, conseqüências e compensações; cada passo dado é planejado anteriormente como uma adequação a determinada situação(embora algumas vezes aja por impulso).É um amor concreto,viril,preocupado em satisfazer seus instintos sexuais e está longe de ser aquele amor “virtual”encontrado nas obras românticas.

Essa busca constante pela satisfação de seus desejos faz-se presente em vários momentos do enredo, resultando por vezes em situações cômicas como o dia em que Vilaça e Dona Eusébia arriscaram-se para conseguir um simples beijo atrás da moita (e acabam caindo no ridículo); o dia em que Brás Cubas deixou de atender a seu pai para conseguir o primeiro beijo de Eugênia; e até mesmo seus encontros com Virgília na casinha.

O amor é diversas vezes tratado de forma irônica por Machado de Assis na obra.Isso pode ser observado quando o narrador afirma que Marcela amou-o por quinze meses e onze contos de réis; ou quando o capitão do navio em que Brás viajava, após a morte de sua amante, deixa-se levar pelos elogios do passageiro e esquece-se da falecida; ou ainda quando Virgília enamora-se de Brás Cubas, mas casa-se com aquele que, apoiado por pessoas influentes, efetivamente viria a ocupar cargo público (e que não tinha nenhum atributo a mais, segundo nosso protagonista).

O episódio da menina manca é também um fato interessante.O protagonista admira-se com a sua beleza, porém não alimenta nenhum sentimento por ela devido a seu defeito na perna.Eugênia, por sua vez, demonstra estar ciente da situação e não se ilude em relação a Brás Cubas; ela beija-o, mas sabe que ele irá embora e não haverá mais nada entre eles.

O próprio narrador arrisca-se a definir seu amor por Virgília, refere-se a seu relacionamento como o nosso amor e compara-o a uma planta que nasce e cresce depressa, “que brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques”, caracteriza-o como breve, ardente, o “prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, - uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio – vida de agitações, de cóleras, de desesperos, de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade”.

Brás Cubas afirma que Virgília o amava com fúria; ela diz que seu amor é a vontade do céu.O certo é que inicialmente não houve paixão entre eles, mas após “três ou quatro giros de valsa” eles passaram a sentir o delírio do amor.Isso se deve ao fato de que, segundo nos conta o narrador, o primeiro momento era inoportuno: ambos não estavam maduros o suficiente para aquele relacionamento.Outra certeza é a de que, com o passar dos anos, a chama do amor vai se apagando, o relacionamento torna-se constante, não mais tresloucado e infantil e sim tranqüilo e passível de se extinguir, como na realidade acontece com os casamentos.

O amor encontrado na obra é egoísta, ciumento, e até mesmo masoquista, se atentarmos para o fato de que se tratava de um relacionamento adúltero, passível de comentários maldosos da vizinhança e também de um flagrante, com conseqüências desastrosas para os amantes (no caso do relacionamento com Virgília).

Apesar de se manifestar tão intenso (ou por esse motivo), o sentimento ocorre apenas durante a juventude.Podemos observar ainda que o amor que o protagonista dedica às mulheres no decorrer da trama é conformado.Ele não se sacrifica nem exige sacrifício do outro, só quer o que está ao alcance da mão. É com uma facilidade incrível que Brás Cubas esquece suas amantes e não insiste mais em seus amores.Foi assim com Marcela, Eugênia, Nhã-loló e Virgília.

Por isso mesmo podemos dizer que a forma com que Machado de Assis trata da temática do amor no romance demonstra ser um toque de Realismo que é dado a um tema amplamente explorado pelo Romantismo.Há nesse amor que é mostrado na obra uma caracterização realista. É um amor selvagem, onde os personagens agem como que por um instinto animal; primeiro a atração do macho pela fêmea, depois a insistência irracional no ato (os “machos” envolvidos parecem não raciocinar, não vêem nada a sua frente, a não ser a “fêmea”).Além disso, vem a reprodução, a perpetuação da espécie: Brás Cubas não suporta o filho de Virgília com Lobo Neves,mas sonha incessantemente com o seu e frustra-se quando este não vem ao mundo,indo buscá-lo em Nhã-loló (sem sucesso).

E assim, após separar-se de Virgília e acompanhar a morte de Nhã-loló, nosso protagonista não nos fala mais de amores.Porém, antes de morrer, o narrador dá notícias de seus antigos namoros: Virgília, a quem se refere como antiga dama, é agora uma amiga; Marcela morre em sua presença e Eugênia vai parar em um cortiço onde Brás Cubas distribuía esmolas.

O amor vai-se, assim como a juventude.Ele também tem um tempo de vida, também tem seus momentos de juventude, maturidade e velhice.A um animal no fim da vida, não há mais o que fazer, apenas esperar pela morte; a um homem, só resta dedicar-se às lembranças e reflexões sobre viver e morrer... O amor seria então o maior exemplo de que a vida é inconstante, mutável e transitória.

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